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LETÍCIA ZAMPIÊR - JUNHO/2020 Gatilhos

É mais tarde do que supões É tarde demais e você sabe disso. Você sabe desde o minuto em que optou por recusar minha presença. É tarde demais desde antes do começo, pois o tempo e o destino, companheiros inseparáveis, nunca estiveram ao nosso lado. Ou talvez só seja mais fácil acreditar em forças externas do que na fragilidade de nós. E como éramos frágeis. Você sabe a minha raiva, e não sei o que se passa na sua cabeça. Repito nossa histórias com outras, como já repetira antes e como vou continuar repetindo. Me bancar custa e você sabe disso mais do que ninguém. Eu te entendi na mesma proporção que você me entendeu. Pouco, muito pouco. Em cada sumiço tentava entender o que você queria de mim. Mas não há respostas que digam de você. Tudo o que sei é que você sempre quis demais e não tinha o suficiente para te dar.  Sei que os quadros que te dei ficaram meses guardados. Talvez por raiva, talvez por desgosto. Talvez te lembrassem de mim e sei que você quer me esquecer desde antes de ...

ISABELA IESSI - JUNHO/2020 (Gatilhos)

Até os ponteiros do relógio estão fora do eixo. O tempo que antes era contínuo, hoje encontra-se desmembrado. Faz tanto tempo e é até difícil lembrar quando é que ele decidiu se rebelar. Você, que tem a memória atenta, se arrisca? Pensando bem, talvez tenha ocorrido no mesmo segundo que o mundo também deixou de ser fluido. O tempo decidiu não ser mais programado. O mundo obrigou os robôs a viverem no improviso. Alguns enxergam como perda de tempo. Eu prefiro ver como oportunidade de repelir ideologias e perspectivas obsoletas. Momento de deixar de ser ruído e passar a ser estridente. - Mas cada um no seu tempo, né? - Uma ova!