Letícia Zampiêr - Agosto/2020 - Cascata de palavras
Sou Não me olho no espelho há cinco meses. Vejo o reflexo por pedaços — os cabelos penteados, a espinha por espremer, o vermelho dos olhos sem as lentes de contato. Esqueci o meu rosto, apesar de nunca tê-lo conhecido. Não há registro psíquico da própria face. Ainda tenho pesadelos, acordando gelada no meio da noite. A solidão do quarto fechado me eximia. O alívio vinha acompanhado das dores musculares e dos licores artesanais. Ainda vem. Mas sei que preciso olhar. Preciso olhar? Preciso olhar para que possam ver? Posso olhar? Não há como saber de uma imagem que não se pode registrar. E se eu fechar os olhos? E sair? E me pôr a ser vista? Culpo a analista, a taróloga e a numeróloga. Se não fosse a sessão extra, a leitura anual, a previsão para o mês de agosto, nosso último encontro teria sido no meio da madrugada, no ônibus para São Paulo. Você voltando, eu fugindo. Olho de frente para o corpo. Casa e inimigo. Primeiro, doi. Os olhos ardem como se o ar fosse químico. Continuo. A l...