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Mostrando postagens com o rótulo Cascata de palavras

Letícia Zampiêr - Agosto/2020 - Cascata de palavras

Sou Não me olho no espelho há cinco meses. Vejo o reflexo por pedaços — os cabelos penteados, a espinha por espremer, o vermelho dos olhos sem as lentes de contato. Esqueci o meu rosto, apesar de nunca tê-lo conhecido. Não há registro psíquico da própria face. Ainda tenho pesadelos, acordando gelada no meio da noite. A solidão do quarto fechado me eximia. O alívio vinha acompanhado das dores musculares e dos licores artesanais. Ainda vem. Mas sei que preciso olhar.  Preciso olhar? Preciso olhar para que possam ver? Posso olhar? Não há como saber de uma imagem que não se pode registrar. E se eu fechar os olhos? E sair? E me pôr a ser vista? Culpo a analista, a taróloga e a numeróloga. Se não fosse a sessão extra, a leitura anual, a previsão para o mês de agosto, nosso último encontro teria sido no meio da madrugada, no ônibus para São Paulo. Você voltando, eu fugindo. Olho de frente para o corpo. Casa e inimigo. Primeiro, doi. Os olhos ardem como se o ar fosse químico. Continuo. A l...

Natália Curado - 20/08/2020 - Cascata de Palavras

o último gole ou em algum lugar do atlântico não se pode mais fumar prefiro gim a uísque. não poderia ser diferente. filha do meio de uma família de cinco. você me falou. meu filho não terá o seu nome. eu deveria ter dito. mas tanto faz. agora é só isso. a urgência do cigarro queimando entre os dedos, o amargor da saudade entre um trago e outro. o estrago misturado a vermute e suco de bergamota . sem açúcar, por favor. melhor assim. tudo o que arde cura. mamãe insiste com o vidro de merthiolate nas mãos. toda cicatriz é prova disso. o grito preso na garganta. aquela palavra que você nunca disse. no total são 6912 idiomas no mundo. deu no jornal. ainda sim, esse silêncio não me deixa mentir. muito menos ouvir o canto das cigarras às 6h da manhã. vai chover. leve um casaco. mais uma vez mamãe não erra. e tudo arde. e tudo molha. no entanto a sede não se mata apenas com uma dose de tônica e duas pedras de gelo. nem a presa. nem o homem. pobrezinhos. nunca irão saber.  a pele ferid...

Ana Trindade - 18/08/2020 - Cascata de Palavras

  cascata de palavras - MAYARA   Escrita. Amor. Janela. Alma. Fracasso. Tempo. Ego. Ritmo. Controle. Abismo. Segundos. Receio. Vicio. Plural. Abastecimento. Penhasco   Pedro tinha muito sentimentos misturados na cabeça que eu sempre achei assim, meio sem ritmo. Quisera o pobre coitado ser como eu, uma pessoa com sua escrita definida. Um abismo sem fim era a vida desse pobre rapaz que conheci no dia em que a cidade inteira parou . Parou pq? Ora,   ora. Quem sou eu? Mania de dono da verdade. Nem memória   tenho. Mentir ,se tornou um vício. O que faço eu aqui parado nesse penhasco, perguntava-se Pedro? No meu caso, eu teria medo. Sempre detestei altura. Falta ritmo nisso aqui. Quero dar cabo logo da dor que me aflige a alma. E se eu pular pela janela? Não era penhasco? Penhasco, janela, janela, penhasco. Que interessa? Interessa que se fracassarmos, perdemos o controle. Os segundos sempre passam na frente. E   eu só receio a falta. Falta de amor. ...

ISABELA IESSI - AGOSTO/2020 (Cascata de palavras)

AMIGO IMAGINÁRIO Tínhamos uma conexão difícil de explicar. Sei lá, na vila em que a gente morava as brincadeiras eram sempre inventadas. Pulávamos muros, enterrávamos livros em terrenos baldios, crentes de que brincaríamos a vida inteira. Assim como a roda gigante , sempre voltaríamos para o mesmo lugar. Trem , e não era de um parque de diversões, era um que nos atravessava a infância . Senti muito medo , de perder e do escuro . Enquanto dormia de olhos abertos imaginava fantasmas me vigiando no pé da cama. Todos os dias no mesmo horário ás 3:33 da madrugada. Ele já havia me contado que acordar nesse horário tinha alguma relação com filme de ETs. Será que seria abduzida? “Não, era só mais um dia de insônia ”. Me sentia sem sono mas protegida por ele de novo. Bem que eu queria ser transportada para a praça do chafariz. Era só nossa. Talvez para o mar , onde não haveria mais escuridão. “Vem! Vamos dar um mergulho e aproveitar o sol que você tanto gosta, João ”. Era o nosso combina...