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ISABELA IESSI - SETEMBRO/2020 (Crônica da infância)

UM CATADO DE UMA PARTICIPAÇÃO ÍNFIMA Revisitando memórias, enquanto criança, não me lembro dela. Demorei para perceber que sua participação foi ínfima durante meu crescimento. Isso explica suas inúmeras tentativas de aproximação? Não sei. Difícil não cobrá-la por isso. Não lembro da sua voz. Era doce ou grosseira? Tinha resquícios dos maços de cigarro que fumava? Me esqueci ou quase não se dirigia a mim? Tentava? Apesar da solidão costumeira, esperava ansiosamente que me deixasse com a faxineira. Assim, eu tinha a liberdade de escalar o portão construído pelo papai no quintal. Este, tentava me separar da minha grande paixão. A Paquita, era nossa cachorra, uma pastor belga, que supria a falta que eu sentia de uma mãe. Encontrava refúgio em sua casinha. Entre cheiro de urina, fezes e chumaços de pêlos pretos, que eram a causa da minha bronquite, permanecíamos horas conversando sobre meus tantos amigos imaginários. Ela, atenta, me ouvia. Algo que eu almejo que o façam até hoje. Quando che...

Natália Curado - Crônica da infância

crescer leva tempo na infância, eu ainda me lembro, a vida é simples. crescer leva tempo e alguns centímetros marcados a lápis na parede anualmente pela mamãe. os pequenos sabem bem. juntar os pés, estufar o peito, erguer a cabeça. o ritual para descobrir a idade em que se chega à altura dos sonhos é inconfundível. apesar da resposta não ser exata. ainda assim o risco entre calçar os sapatos do pai e se sentir invencível e tirar as rodinhas da bicicleta e não ter os joelhos ralados nos faz continuar. e então caímos e levantamos mais um bocado de vezes. e choramos e depois sorrimos. e perdemos o medo do escuro e apagamos a luz do corredor. e ganhamos mais um irmão, e brigamos para não ir sentado no meio naquela longa viagem de carro para bahia, e só fazemos as pazes porque o pai mandou. e passamos as férias à contragosto na casa da tia, e implicamos com os primos, e viramos melhores amigos. e vamos ao cinema sozinhos, e dividimos a pipoca e anos depois o primeiro trago. e um dia chegamo...