Natália Curado - Crônica da infância
crescer leva tempo
na infância, eu ainda me lembro, a vida é simples. crescer leva tempo e alguns centímetros marcados a lápis na parede anualmente pela mamãe. os pequenos sabem bem. juntar os pés, estufar o peito, erguer a cabeça. o ritual para descobrir a idade em que se chega à altura dos sonhos é inconfundível. apesar da resposta não ser exata. ainda assim o risco entre calçar os sapatos do pai e se sentir invencível e tirar as rodinhas da bicicleta e não ter os joelhos ralados nos faz continuar. e então caímos e levantamos mais um bocado de vezes. e choramos e depois sorrimos. e perdemos o medo do escuro e apagamos a luz do corredor. e ganhamos mais um irmão, e brigamos para não ir sentado no meio naquela longa viagem de carro para bahia, e só fazemos as pazes porque o pai mandou. e passamos as férias à contragosto na casa da tia, e implicamos com os primos, e viramos melhores amigos. e vamos ao cinema sozinhos, e dividimos a pipoca e anos depois o primeiro trago. e um dia chegamos mais tarde do que o horário combinado e discutimos com os nossos pais e aprendemos que não importa quão forte sejam os nossos argumentos, perderemos sempre essa batalha. e quase repetimos de série na escola, e passamos na faculdade, e compramos um carro e saímos de casa e num piscar de olhos, nem percebemos, mas os sapatos do pai já estão apertados em nosso pés e os riscos na parede não passam de utopias tão distantes que na realidade nem podemos mais tocá-los. de qualquer jeito, naquele domingo eu resolvi tentar. estendi a mão, estiquei o dedo, apertei a campainha. mamãe abriu a porta com um sorriso diferente no rosto. também quase não reconheci o pai sentado sereno no sofá do canto da sala brincando de carrinho com os filhos dos meus irmãos. era a primeira vez em anos que nos reuníamos para almoçarmos juntos. precisamos fazer mais isso, minha irmã insiste. João sente falta de dormir na cama dos avós, de construir cabaninhas fantásticas com os tios, de correr sem parar atrás do primo. aposto que o Lucas também, murmura o meu irmão. e antes de não dizer nada, eu fiquei pensando naquelas crianças daqui a quanto tempo já crescidas sem nunca terem viajado de carro para bahia, sem terem passado um verão sequer na casa da tia. não, não era isso que eu queria. eu queria que comparecêssemos todos aos almoços de família, e que mamãe sorrisse sempre ao abrir a porta, e que nos sentássemos à mesa e que comêssemos ouvindo o pai reprisar as histórias de quando éramos menores. acho que foi por isso que eu apertei a campainha. para acender o passado, para iluminar o futuro, para de alguma forma voltar a enxergar o que sou por dentro. na hora de ir embora as recordações deram lugar ao porvir. as crianças não podiam acreditar nas tantas aventuras que ouviram e pediram então para ver as nossas alturas marcadas na parede. quando eles viram os tracinhos riscados e os nossos nomes escritos sobre a tinta branca, os olhinhos brilharam e obviamente também quiseram deixar suas marcas ali. mamãe sem titubear pegou o lápis e a fita métrica. o pai, sabendo onde aquilo ia dar, me falou para demonstrar a técnica correta para os meninos. involuntariamente os pés se juntaram, o peito se estufou, a cabeça se ergueu. e é por isso que está lá até hoje: Natália, 35 anos, 172 cm. por sorte eu nunca fui tão pequena em toda a minha vida.
Nah, que texto lindo. Poxa, viajei junto com suas palavras.
ResponderExcluirNão tenho irmãos mas me lembrei de muitos episódios em que minha família se reunia em viagens e brincava com meus primos. Pude sentir uma saudade imensa de momentos bons da minha infância que já havia me esquecido.
Sua escrita arrebatadora, como sempre.
Isa, seus comentários sempre me fazem enxergar de forma mais carinhosa a minha escrita! É sempre gosto quando o nosso universo desperta algo no interior do outro. Obrigada por embarcar nessa viagem comigo! =)
ExcluirNatália, que coragem escrever assim, com minúsculas!!! Engraçado que também me lembrei coisas da minha infância...eu que julgo não ter memória. rs
ResponderExcluirMuito fuído o texto. Parabéns!
Ana
LINDO, Natalia, LINDO, LINDO E LINDO! o texto está muito bem cuidado, as cenas lindíssimas, a repetição do "e" faz muito sentido, fazendo alusão à linguagem infantil (e zas e zas e zas do Chaves, sabe?).
ResponderExcluircomentaremos sobre sua crônica na aula! <3