Carol Mello - Junho 2020
Margaria esperou por muito tempo naquele dia. Desde a hora que acordou ela esperava. Não se deu conta quando o sol se pôs, quando a cidade se apagou ou quando a chuva começou a cair. Era inverno e o frio doía na pele magra e pouco aquecida mas ela não ligava. Passou o dia pulando o olhar do relógio de parede para aquela janela principal.
Esperar pode parecer um momento de calmaria, mas naquele momento significava agitação, coração acelerado, aperto no peito e frio na barriga. Uma verdadeira tsunami, nada de mar calmo. As vezes ela alternava o olhar fixo com andanças de um lado para o outro, o barulho do salto na madeira parecia sincronizado com o compasso do relógio. "Tic tac, toc toc, Tic tac.."
Olhando pela janela ela conseguia imaginar o futuro que até tão pouco tempo era incerto. O futuro lindo que ela tinha visto em outros lares. Será que sua hora finalmente chegou? E se chegou porque ele não chega?
A guerra tinha acabado há 10 dias. Ela sabia porque contava obsessivamente. Era o tempo de viagem para o retorno dele. Seu grande amor estava nas trincheiras há 8 meses. Oito longos meses. Nesse período, uma vida cresceu, Margarida não esteve só. Um filho, tão desejado por eles, que agora teria seu pai por perto. Uma reviravolta maravilhosa do destino que nem Margarida imaginava.
Finalmente ele voltou, aquele abraço, tão tarde da noite parecia ter feito o relógio parar. Havia um mundo inteiro entre aqueles braços. Era verdade, a guerra realmente acabou. A gestação está quase no seu fim. E essa família vai renascer.
Oi, Carol. Que história linda. Mais linda ainda pq não foi óbvia. Gosto de ler algo que eu não saiba o final. E gostei muito de como conduziu a sua.
ResponderExcluir"E se chegou porque ele não chega?" - adorei essa frase. Me fez sentir a mesma ansiedade da personagem.
Bjo
Isa
=))))
ExcluirCarol, querida.
ResponderExcluirestou surpresa com seu texto e é uma surpresa boa! Lembro bem que seus textos ao longo da Oficina foram bastante autobiográficos e aqui percebo você se arriscando numa história que (por mais que tenha alguma semente de inspiração na realidade, não sei) flerta com uma escrita de ficção. Maravilhoso! Adorei saber que os gatilhos serviram de insumo para um texto tão delicado. Parabéns!
gostei que seu texto dobrou para a esquina que eu não esperava: inicialmente, pela forma que escreveu, imaginei um texto melancólico até o fim, porém você foi acendendo e florescendo a história, e acaba arrancando um sorriso do rosto, deixando um ar mais esperançoso. essas surpresas são sempre legais (assim como a gente gosta de ver em filmes, livros, séries...)
"Esperar pode parecer um momento de calmaria, mas naquele momento significava agitação, coração acelerado, aperto no peito e frio na barriga." > sugiro rever essa passagem por dois motivos. você repete a palavra "momento" muito em seguida uma da outra. talvez basta cortar. "Esperar pode parecer calmaria, mas naquele momento era ...". sabe? a outra coisa é que acho que você pode explorar mais esses sintomas de agitação tentando sair dos clichês. coração acelerado, aperto no peito e frio na barriga... como descrever a agitação de outra forma? ou como descrever esses mesmos sintomas de outro jeito? exemplo: coração batendo num tempo dobrado / de tanto se debater, o coração angustiado inchou dentro do peito, ficou espremido... entende? são saídas rápidas que pensei aqui, mas tente descrever esse sentimentos de um jeitinho só seu.
adorei, Carol. muito legal te ver esquentando a mão na escrita.
um beijo,
Tayná
Que história fofa Carol!!!
ResponderExcluirGosto de como a angustia dela vai ficando esperançosa...até o final feliz chegar, com firmeza e certeza!
Ana Trindade.
:)
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