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Mostrando postagens de agosto, 2020

Clara - cascata de palavras - 24/08/2020

Rolo na cama. O relógio marca 7h58. Merda! Acordei antes do despertador de novo. Será que vale a pena virar pro lado e dormir mais dois minutos? Não vale. Faz um frio pouco habitual no Rio de Janeiro e minha vontade é passar o dia inteiro de pijama, enrolada no cobertor. Me encho de coragem e levanto. Percebo que é sexta-feira, consolo-me. Tomo um café pouco quente e muito amargo e um banho morno. Quando chego à calçada, a luz do sol já aparece, o que torna a caminhada até o metrô mais agradável. Exceto pela vala na rua próxima a estação, especialmente cheia de lixo hoje, exalando um fedor insuportável. Fico com medo que o cheiro tome conta do meu cabelo recém lavado. Que vida fútil eu levo. Tantas coisas mais urgentes e eu preocupada se vou ficar cheirando a chorume. Preciso de preocupações melhores. (Usei a cascata de palavras da Duda:  pijama.  cama.  frio.  cobertor.  quente.  sol.  luz.  vida.  medo.  coragem.  caminhada. ...

Malu - texto com microcontos aula 23/8/2020

  Chegou a São Paulo assim de supetão. Não se sabe se foi de trabalho ou de amor. Só notou no dia que vinha andando pela 16 de julho quando tropeçou e caiu do mundo. É engraçado que quando rememora parece assim. Augusta só sabia que naquele dia as borboletas reinaram. Sabe essas coisas que bate e pronto? Foi assim. Pensando melhor não sei se entendo essas coisas de bate e pronto. Não tem que fermentar e cozinhar em fogo baixo para fazer bom? Quem tem a receita perfeita partilha porque estão num bater de asas e não se sabe se encontrou. Mas enfim, voltemos. Foi de trabalho e tinha um mote. Faz melhor para que o tempo passe, mas não sabe nada da pressa. E então nesse ambiente tinha um Tom ou um Vinícius. Quando saíram para drinks e encontra um ponto e vírgula. Isso posto voltamos naquela primeira impressão porque no tempo se perdeu se foi no início ou no bar ou se foi na rua. Já tinha feito essa ressalva de que a instantaneidade não tinha sido assim tão ponto final. Mas no dia das ...

Letícia Zampiêr - Agosto/2020 - Cascata de palavras

Sou Não me olho no espelho há cinco meses. Vejo o reflexo por pedaços — os cabelos penteados, a espinha por espremer, o vermelho dos olhos sem as lentes de contato. Esqueci o meu rosto, apesar de nunca tê-lo conhecido. Não há registro psíquico da própria face. Ainda tenho pesadelos, acordando gelada no meio da noite. A solidão do quarto fechado me eximia. O alívio vinha acompanhado das dores musculares e dos licores artesanais. Ainda vem. Mas sei que preciso olhar.  Preciso olhar? Preciso olhar para que possam ver? Posso olhar? Não há como saber de uma imagem que não se pode registrar. E se eu fechar os olhos? E sair? E me pôr a ser vista? Culpo a analista, a taróloga e a numeróloga. Se não fosse a sessão extra, a leitura anual, a previsão para o mês de agosto, nosso último encontro teria sido no meio da madrugada, no ônibus para São Paulo. Você voltando, eu fugindo. Olho de frente para o corpo. Casa e inimigo. Primeiro, doi. Os olhos ardem como se o ar fosse químico. Continuo. A l...

Natália Curado - 20/08/2020 - Cascata de Palavras

o último gole ou em algum lugar do atlântico não se pode mais fumar prefiro gim a uísque. não poderia ser diferente. filha do meio de uma família de cinco. você me falou. meu filho não terá o seu nome. eu deveria ter dito. mas tanto faz. agora é só isso. a urgência do cigarro queimando entre os dedos, o amargor da saudade entre um trago e outro. o estrago misturado a vermute e suco de bergamota . sem açúcar, por favor. melhor assim. tudo o que arde cura. mamãe insiste com o vidro de merthiolate nas mãos. toda cicatriz é prova disso. o grito preso na garganta. aquela palavra que você nunca disse. no total são 6912 idiomas no mundo. deu no jornal. ainda sim, esse silêncio não me deixa mentir. muito menos ouvir o canto das cigarras às 6h da manhã. vai chover. leve um casaco. mais uma vez mamãe não erra. e tudo arde. e tudo molha. no entanto a sede não se mata apenas com uma dose de tônica e duas pedras de gelo. nem a presa. nem o homem. pobrezinhos. nunca irão saber.  a pele ferid...

Duda Lobo - 18/08/2020 - Cascata de palavras

Usei as palavras da Letícia ( Loucura. Repetições. Família. Círculos. Exame. Grito. Esquecimento. Canto. Fugir. Bagagem. Ombros. Bergamota. Clarice. Cigarro. Ele.) 💛 ___________________________________________ Quanto tem de lembrança em uma bergamota ? No caso de Clarice , uma infância inteira. Era sobre isso que ela estava pensando enquanto se preparava para comer o fruto redondo e laranja. Antes mesmo de levar à boca para sentir o gosto, o cheiro se antecipou e a conduziu bruscamente para o passado. Um passado que carregava com esforço nas costas. Uma bagagem que não queria ter.   Sem perceber, ao mesmo tempo, em que lembrou da família fincou com força o dedo no centro vazio que une os gomos. Seu indicador comprido abriu um buraco que atravessou até o outro lado. Pensou que era loucura associar a amargura que sentia do passado com sua forma de comer. Ainda assim sentiu medo de continuar. Largou a fruta em um canto e levantou. Tratou de tirar aquela ideia maluca da cabeça...

Ana Trindade - 18/08/2020 - Cascata de Palavras

  cascata de palavras - MAYARA   Escrita. Amor. Janela. Alma. Fracasso. Tempo. Ego. Ritmo. Controle. Abismo. Segundos. Receio. Vicio. Plural. Abastecimento. Penhasco   Pedro tinha muito sentimentos misturados na cabeça que eu sempre achei assim, meio sem ritmo. Quisera o pobre coitado ser como eu, uma pessoa com sua escrita definida. Um abismo sem fim era a vida desse pobre rapaz que conheci no dia em que a cidade inteira parou . Parou pq? Ora,   ora. Quem sou eu? Mania de dono da verdade. Nem memória   tenho. Mentir ,se tornou um vício. O que faço eu aqui parado nesse penhasco, perguntava-se Pedro? No meu caso, eu teria medo. Sempre detestei altura. Falta ritmo nisso aqui. Quero dar cabo logo da dor que me aflige a alma. E se eu pular pela janela? Não era penhasco? Penhasco, janela, janela, penhasco. Que interessa? Interessa que se fracassarmos, perdemos o controle. Os segundos sempre passam na frente. E   eu só receio a falta. Falta de amor. ...

ISABELA IESSI - AGOSTO/2020 (Cascata de palavras)

AMIGO IMAGINÁRIO Tínhamos uma conexão difícil de explicar. Sei lá, na vila em que a gente morava as brincadeiras eram sempre inventadas. Pulávamos muros, enterrávamos livros em terrenos baldios, crentes de que brincaríamos a vida inteira. Assim como a roda gigante , sempre voltaríamos para o mesmo lugar. Trem , e não era de um parque de diversões, era um que nos atravessava a infância . Senti muito medo , de perder e do escuro . Enquanto dormia de olhos abertos imaginava fantasmas me vigiando no pé da cama. Todos os dias no mesmo horário ás 3:33 da madrugada. Ele já havia me contado que acordar nesse horário tinha alguma relação com filme de ETs. Será que seria abduzida? “Não, era só mais um dia de insônia ”. Me sentia sem sono mas protegida por ele de novo. Bem que eu queria ser transportada para a praça do chafariz. Era só nossa. Talvez para o mar , onde não haveria mais escuridão. “Vem! Vamos dar um mergulho e aproveitar o sol que você tanto gosta, João ”. Era o nosso combina...

CASCATA DE PALAVRAS - exercício fluxo de consciência/ monólogo interior - agosto 2020

vamos usar as cascatas de palavras da primeira aula de fluxo de consciência como gatilhos de escrita . escolha a cascata de palavras de uma de suas colegas e escreva o seu texto a partir dela ( poste-o separadamente no blog, como de costume ). tente explorar o fluxo de consciência e/ou o monólogo interno. fique à vontade para criar textos ficcionais, personagens e situações. divirta-se! ATENÇÃO: todas as palavras devem aparecer na narrativa. ATENÇÃO:   as palavras NÃO precisam ser usadas na ordem. ATENÇÃO:  ao fim do seu texto, sinalize o nome da colega da qual se inspirou na cascata de palavras. cascata de palavras - LETÍCIA Loucura. Repetições. Família. Círculos. Exame. Grito. Esquecimento. Canto. Fugir. Bagagem. Ombros. Bergamota. Clarice. Cigarro. Ele. cascata de palavras - ISA Mãe.  Distante.  Adolescência.  Conversas.  Amigas.  Distância.  Amadurecimento.  Falta.  Vivências.  Alegrias.  Depressão.  Psicanálise....

Duda Lobo - Fluxo de Consciência

  O tempo tá passando. Claro que tá, ele nunca para. Qual o problema de escrever tá em vez de está?  Em vez em vez de ao invés ? Disperso o olhar. E se eu não conseguir? No final sempre sai alguma coisa. Não faz o menor sentido essas pausas pra esperar o pensamento. Pra ou para? Acho que nem da pra fazer isso de não pensar. Dizem que quando se medita a cabeça fica vazia. Duvido. Tomara que ninguém entre agora. Será que toda música que da vontade de chorar revela um pouco das feridas abertas? Eles dizem que música triste deprime. E daí? Porque as pessoas têm tanto medo de mostrar que estão tristes? Eu, inclusive. Quem tá atento percebe? Passo desapercebida. Entraram no quarto. Tomara que fique em silêncio. Um homem não me define, minha casa não me define, minha carne não me define, eu sou meu próprio lar…  essa música. Essa música . Um homem não me define, minha casa não me define, minha carne não me define, eu sou meu próprio lar…  refrão de música deve existir pra ...

Natália Curado - Fluxo de Consciência

todos vestiam preto, foi o que a minha mãe me falou no dia seguinte. fazia muito calor e todos vestiam preto. e então eu não perguntei mais nada. pela primeira vez me bastava saber que teu rio constantemente teve disso. águas calmas em pleno julho, riso fácil em plena tempestade. é inverno e mesmo assim faz calor. engraçado, não?! antes de ontem o céu estava muito azul e não vestíamos preto. hoje já não acredito mais na previsão do tempo. ainda assim, diariamente, compro o jornal na banca da esquina e me pergunto antes mesmo de chegar na segunda folha: depois de quanto tempo sentirei tua falta no primeiro assento do ônibus às 6h da manhã de uma segunda-feira qualquer? faço mais uma oração mas nenhum deus me responde. você sabe bem. às vezes há uma luz no fim do túnel. às vezes fechamos os olhos antes de apertar o gatilho. para quem sobrevive ao passar das horas é sempre tarde demais. outra vez risco o dia 03 do calendário. não importa que hoje seja só domingo. chegamos à copacabana mai...

Mariana - Agosto 2020 - Fluxo de Consciencia

     Há tantos carnavais... Sempre me pergunto onde está o confete? Será que tem um atrás do sofá? Aquele resto de purpurina brilhando no chão. Lembrando de quando fomos felizes. Será que éramos mesmo? Foi tudo ilusão de uma noite quente de verão.     Por que será que os plásticos duram tanto? Seria mais fácil que não fosse assim. Não lembraria de você exatamente as 11:05 de um domingo que após tanta preguiça eu resolvi arrumar a casa. Quatro meses se passaram. Ainda estou de pijama. O mesmo da ultima noite. Será coincidência? Realmente não acredito nelas. Me agarro a elas, em dias de chuva. O calor já tinha ido embora, não sei se era o seu ou da estação.      Agora escrevo na luz de canto a noite, seca e fria. Nem mesmo que você entrasse pela porta, me esquentaria. Só o uísque tem esse poder, queria eu que não fosse assim. Melhor depender dele que de você. Ah! esqueceu seu bilhete do metrô. Fico entre rasgar, dar a alguém...

Letícia Zampiêr - Agosto/2020 (Fluxo de consciência)

O cheiro do verniz me sufoca. Sinto na língua um gosto de piscina, de infância. Das tardes na água quente, rodando de um lado para o outro, metade ódio, metade diversão. Sempre odiei muito, desde muito pequena. Odiava o que era imposto, o que vinha do medo, o que não era explicado. Minha mãe sempre teve muito medo. Ela sempre explicou muito pouco. Será que é porque isso que eu quero tanto assim saber sem de fato querer saber? Saber dá medo. Ela me deu pouco. Me dizem que preciso mergulhar, olhar para o espelho, cavar o pus. Não sei se quero fazer a pergunta que pode me libertar. Mas me libertar de quê? Tá tão quentinho aqui. Minha analista me pergunta o que eu escrevo, já que digo que não tenho nada a dizer. Calo. Não sei do que escrevo. Mas me sinto convocada a falar do sangue. Hoje. Do sangue que escorre das peles puxadas dos dedos, que nunca falei em análise por sei lá que motivo. Porque se falaria das peles puxadas? Porque se falaria dos alfinetes que cortam, das unhas e dos remédi...

Ana Trindade - 07.agosto.2020 -

  Sentei....finalmente. Há dias penso em fazer isso. Sentar e escrever. Mas falta coragem. Acho que vou fazer tudo errado. Mas ordem é ordem, e eu cumpro ordens. Volta aqui mente, o assunto era   coragem. Aliás, me falta coragem para quase tudo. Preciso de ajuda. Desejo ajuda. Estou a procura de mim. Onde foi que me perdi? Terá sido aos quatro anos, como teimo em tratar quando faço terapia? Engraçado, é que apesar da falta de memórias, na sessão de ontem. Lembrei de mim aos quatro anos. E no final, relacionei com o acidente da minha mãe quando ela tinha quatro anos. Hoje falei com a filha que sentia sua falta quando tinha 4 anos. Como eram lindos seus cachinhos dourados. Que vazio... Estou com essa mania de fazer associações relacionadas ao destino ou a coisas do sobrenatural. Ridículo isso. Deve ser pq o mundo diz que tudo se resolve com fé. Bem que eu gostaria...mas é como li certa vez, " Fé é um dom, e eu não fui agraciada com ele” Minha mente   está parada! Saudade ...

ISABELA IESSI - AGOSTO/2020 (Fluxo de consciência)

Sentei na mesa da cozinha e comecei a ler os comentários da Tayná nos meus textos no blog. Fico tão contente quando ela fala sobre a minha dedicação e mais que isso, sobre a evolução da minha escrita. Também percebo que evoluí. Não sei quanto mais tenho pela frente, mas também não me incomoda tanto no momento. Acho que me importo mais com a caminhada. Preciso de 25 minutos sem interrupções, ela disse. Caramba. Onde eu vou arrumar isso? Na minha cabeça e no meu tempo? Agora tô aqui tentando achar esse tempo e escrever algo que exponha o meu fluxo de consciência. Já tentei apagar algumas frases, viu? Quase ri alto nesse momento. Tentando falar comigo e com a Tayna ao mesmo tempo. Imaginei a expressão facial dela. “Fique tranquila. Eu tentei, mas logo dei um clique no voltar”. Sei que essa não é a proposta do exercício. Então, prometo seguí-lo direitinho. Parece que quando a gente senta pra escrever algo e tenta vigiar ou capturar os pensamentos é quando, pela primeira vez, a mente fica v...