Natália Curado - Fluxo de Consciência
todos vestiam preto, foi o que a minha mãe me falou no dia seguinte. fazia muito calor e todos vestiam preto. e então eu não perguntei mais nada. pela primeira vez me bastava saber que teu rio constantemente teve disso. águas calmas em pleno julho, riso fácil em plena tempestade. é inverno e mesmo assim faz calor. engraçado, não?! antes de ontem o céu estava muito azul e não vestíamos preto. hoje já não acredito mais na previsão do tempo. ainda assim, diariamente, compro o jornal na banca da esquina e me pergunto antes mesmo de chegar na segunda folha: depois de quanto tempo sentirei tua falta no primeiro assento do ônibus às 6h da manhã de uma segunda-feira qualquer? faço mais uma oração mas nenhum deus me responde. você sabe bem. às vezes há uma luz no fim do túnel. às vezes fechamos os olhos antes de apertar o gatilho. para quem sobrevive ao passar das horas é sempre tarde demais. outra vez risco o dia 03 do calendário. não importa que hoje seja só domingo. chegamos à copacabana mais cedo do que o previsto. agora faltam apenas seis dias para o seu aniversário. 33 anos, e eu ainda não consegui chorar, nem ao menos vestir preto. inúteis são as tentativas de te trazer de volta. egoístas também, não consigo deixar de pensar. talvez porque do lado de cá só restam os sapatos preto empoeirados no canto do quarto. ou simplesmente porque saudade se tornou uma palavra irreversível.
Nat, querida
ResponderExcluiré muito legal ver sua concisão até num fluxo de consciência.
acho isso muito legal em você: respeita seu estilo, independentemente do exercício proposto.
é excelente pois você pode experimentar quando e quanto quiser sem perder a sua essência.
falei a mesma coisa com as outras moças: cuidado para não legendar o pensamento. fluxo de consciência não se explica e não pretende ser claro. diante disso, "e então eu não perguntei mais nada"... acha que precisa? imagine, por exemplo, " fazia muito calor e todos vestiam preto. sei isso e só."
aqui a mesma coisa: "ainda assim, diariamente, compro o jornal na banca da esquina e me pergunto antes mesmo de chegar na segunda folha: depois de quanto tempo sentirei tua falta no primeiro assento do ônibus às 6h da manhã de uma segunda-feira qualquer?"
é uma ótima narração, mas num fluxo de consciência, pense em algo como "ainda assim, diariamente, compro o jornal na banca da esquina. sempre vem igual. sentirei tua falta no primeiro assento do ônibus às 6h da manhã de uma segunda-feira qualquer?"
percebe? a gente não se explica e nem se roteiriza pra si mesma.
"faço mais uma oração mas nenhum deus me responde." --- "oro. deus, por favor. nenhum deus responde."
"às vezes fechamos os olhos antes de apertar o gatilho."- excelente frase para chamar o leitor de volta para o texto. causa estranhamento, surpresa, curiosidade. esses sustos são essenciais para que não fique monótono. é quase como o texto dobrando a esquina do pensamento: o que vem depois? muito bom, Nat!
"agora pouco me importa se chegamos à copacabana mais cedo do que o previsto." --- também me parece explicativo. se tivesse que dizer mais focada num fluxo de consciência, como seria?
outro exemplo rápido: "inúteis são as tentativas de te trazer de volta." --- "e daí? você não volta mesmo. nenhum deus responde".
esse final ficou tão tão tão lindo. um misto de curiosidade, sensação de que pode vir mais, e ao mesmo tempo que o que precisava ser dito já foi...
estou adorando ver você para além dos poemas. CONTINUE! você tem fôlego e sabe fazer isso sem perder os silêncios que moram nas entrelinhas do seu texto.
com carinho,
Tayná.