Mariana - Agosto 2020 - Fluxo de Consciencia
Há tantos carnavais... Sempre me pergunto onde está o confete? Será que tem um atrás do sofá? Aquele resto de purpurina brilhando no chão. Lembrando de quando fomos felizes. Será que éramos mesmo? Foi tudo ilusão de uma noite quente de verão.
Por que será que os plásticos duram tanto? Seria mais fácil que não fosse assim. Não lembraria de você exatamente as 11:05 de um domingo que após tanta preguiça eu resolvi arrumar a casa. Quatro meses se passaram. Ainda estou de pijama. O mesmo da ultima noite. Será coincidência? Realmente não acredito nelas. Me agarro a elas, em dias de chuva. O calor já tinha ido embora, não sei se era o seu ou da estação.
Agora escrevo na luz de canto a noite, seca e fria. Nem mesmo que você entrasse pela porta, me esquentaria. Só o uísque tem esse poder, queria eu que não fosse assim. Melhor depender dele que de você. Ah! esqueceu seu bilhete do metrô. Fico entre rasgar, dar a alguém ou inventar uma desculpa qualquer para te ligar. Perguntaria: "ainda tem meu número?" quando o que queria dizer seria "já se desfez dele? Assim como desfez a cama no primeiro dia?"
Eu podia aqui dizer que meu corpo sente sua falta, que é mais necessário que ar. Seria tudo poeticamente mentiroso, uma farsa! Só pra trazer drama ou um mesmo criar histórias para preencher minha vida vazia. Antes que me julgue, todos temos vidas vazias. A sua mesmo. Sei que vai me falar dos seus projetos, vou fingir interesse, serei agradável e simpática, como sei ser muito bem, aliás uma das minhas melhores qualidades. Será tudo fingimento.
A verdade é que não ligo. Queria ser uma daquelas mulheres de filmes que cresci vendo que sabem se portar (o que quer que isso queira dizer), e me encaixar nessa amante perfeita. Fingir é mais fácil, menos trabalho. E ainda tenho que lavar a louça, fazer aula para amanha, escovar os dentes... Sempre tenho preguiça e isso é algo que dizem não deve ser dito e quanto mais escrito.É a mais pura verdade, pura também não, exagerei. Se me conhece, pelo menos um pouco, sabe que sou dessas. Aliás acha mesmo que me conhece? Também é mais fácil. Tão melhor que explicar que eu sou só aquilo que eu queira que você veja, inclusive minhas fraquezas são meticulosamente demonstradas. Oscilo em deixar me admirar e mostrar o quão odiável eu sou.
Não sei se já te falei mas vejo uma beleza em ser odiada. Sim, verdade. Ora, como assim? Existe uma parte em mim que implora por isso enquanto a outra se desculpa. Ser odiada nada mais é que um estado de amor. Aprendi isso aos 5 anos sendo odiada por gritar por uma boneca do jeito mais mimado que existe. Não se grita assim por amor? Fico pensando que deveria ter tido essa conversa com você, imagino diálogos de resposta e na minha fantasia você daria opiniões que mudariam esse meu padrão. Na verdade, você escutaria, fingiria interesse, mais fácil né?, e voltaria correndo ao seu celular. Antes mesmo de perceber.
Essa pessoa interessante eu construi e o lado bom é que posso destruir. Que alivio! Aliás, acabei de achar mais uma purpurina na cama, melhor refazer a faxina. Dessa vez no sábado.
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