Natália Curado - 20/08/2020 - Cascata de Palavras
o último gole ou em algum lugar do atlântico não se pode mais fumar
prefiro gim a uísque. não poderia ser diferente. filha do meio de uma família de cinco. você me falou. meu filho não terá o seu nome. eu deveria ter dito. mas tanto faz. agora é só isso. a urgência do cigarro queimando entre os dedos, o amargor da saudade entre um trago e outro. o estrago misturado a vermute e suco de bergamota. sem açúcar, por favor. melhor assim. tudo o que arde cura. mamãe insiste com o vidro de merthiolate nas mãos. toda cicatriz é prova disso. o grito preso na garganta. aquela palavra que você nunca disse. no total são 6912 idiomas no mundo. deu no jornal. ainda sim, esse silêncio não me deixa mentir. muito menos ouvir o canto das cigarras às 6h da manhã. vai chover. leve um casaco. mais uma vez mamãe não erra. e tudo arde. e tudo molha. no entanto a sede não se mata apenas com uma dose de tônica e duas pedras de gelo. nem a presa. nem o homem. pobrezinhos. nunca irão saber. a pele ferida exige sempre mais um gole que arda. a ponta da língua demanda a todo momento que sangue e suor embriague-nos. impossível. irão dizer. principalmente quando o fluido não escorre diretamente dos teus ombros. nem esbarra no meu peito. muito menos nos mantém ocupados por uma tarde inteira de verão em copacabana. não, ninguém esquece um corpo que teve nos lábios o ardor da estação. é tão difícil pensar nisso agora. a chuva embaça a janela e os meus pensamentos. mas talvez seja melhor assim. não olhar diretamente para a luz é também uma forma de enxergar. o papel de parede rasgado, o copo vazio em cima do aparador, as guimbas são laranjas antes de virarem cinzas. perdoe me se eu não consigo falar das flores. ou se sou mais inclinada aos abismos que ao encontro inevitável entre céu e mar. quantos anos meu filho levaria até que eu voltasse a acreditar nisso? não importa, we all have secrets we don’t wanna talk about, baby. até mesmo eu. eu que falo demais. que bebo demais. que como demais. que fumo demais. demais. demais. demais. demais. tantas repetições que não me levam a lugar nenhum. dedico-me com inútil afinco a cada uma delas. girar em círculos o canudo antes do primeiro gole. quebrar palitos sobre o prato enquanto você não vem. fingir, está tudo bem, obrigada. até cair no esquecimento. eu deveria estar acostumada. eu nunca estou sozinha nas salas de espera dos aeroportos. ainda assim, fugir!, eis a tarefa mais solitária de todas. uso óculos escuros para disfarçar. como se fosse possível escapar da minha própria solidão. loucura, admito. a clarice das fotos 3x4 dos documentos de identificação também. o atendente da companhia aérea desconfia, mas mesmo assim ele me deixa embarcar. o caminho até a cadeira 12C é longo. as pessoas não parecem acostumadas às luzes de emergência no chão. por sorte, ou isso que você gosta de chamar de destino, temos todos pressa para não estarmos mais em algum lugar. seguir em frente logo se torna isso. tirar a carta mais perigosa do baralho, beber o último gole, ir para um inferno qualquer. tentar me salvar é como tentar acompanhar o ritmo dissimulado dos ponteiros do relógio. um, dois, três, quatro, cinco. diacho! não quero acreditar mais nisso. o tempo passa demasiadamente devagar quando não se pode olhar para trás. ou quando se tem na bagagem o resultado do exame ainda lacrado. tão enlouquecedor estar perto assim da realidade e não delirar. ah! se ao menos as flores fossem tristes. como os peixes nas fotografias. talvez eu teria te falado. ao invés disso agora você caminha sem nem imaginar o que vem depois do abismo. apenas mais um gole? outro porre na manhã seguinte? uma vida inteira de um filho sem saber o nome do pai? o que nos espera ali adiante? provavelmente todas as alternativas anteriores. quiçá nenhuma delas. a verdade é que nunca há apenas uma resposta possível. de qualquer maneira, gim ou uísque, quem se importa? de perto o horizonte também é uma mentira e em algum lugar do atlântico não se pode mais fumar.
* usei a cascata de palavras da Letícia
Oi Natália. Pra mim um puro fluxo de consciência mesmo. Muito muito legal. Adorei.
ResponderExcluirEu só fico na dúvida ainda de quando vc coloca essas frases:
"mais uma vez mamãe não erra", "mas mesmo assim ele me deixa embarcar.", "mesmo tendo na bagagem o resultado do exame ainda lacrado".
Pra mim são as únicas que flertam um pouco com monólogo interior. O que vc acha?
Beijão.
Oi Isa! Fiquei bem feliz com seu comentário!
ExcluirAcho que você tem razão.
Confesso que postei o texto com essa dúvida. A sensação que tenho é que o texto está narrado em alguns momentos.
Beijão
Oi Natália, o seu texto é intrigante...li muitas vezes e em alguns momentos me perdi...seria fluxo? Em outras consigo encadear as idéias...fechando uma história.
ResponderExcluirApesar das explicações da Tay, não me sinto capaz de definir.
Aqui é Ana. Beijos pra você .
Oi Ana! Obrigada pelo seu retorno! É importante saber o que o seu texto causa no outro.
ExcluirEu não sei bem também se o meu texto é fluxo completamente. Em alguns momento acho que é, em outros tenho a sensação de que o texto ficou um pouco narrado, como se tivesse contando uma história mesmo.
Beijão