Letícia Zampiêr - Agosto/2020 - Cascata de palavras
Sou
Não me olho no espelho há cinco meses. Vejo o reflexo por pedaços — os cabelos penteados, a espinha por espremer, o vermelho dos olhos sem as lentes de contato. Esqueci o meu rosto, apesar de nunca tê-lo conhecido. Não há registro psíquico da própria face. Ainda tenho pesadelos, acordando gelada no meio da noite. A solidão do quarto fechado me eximia. O alívio vinha acompanhado das dores musculares e dos licores artesanais. Ainda vem. Mas sei que preciso olhar.
Preciso olhar? Preciso olhar para que possam ver? Posso olhar? Não há como saber de uma imagem que não se pode registrar. E se eu fechar os olhos? E sair? E me pôr a ser vista? Culpo a analista, a taróloga e a numeróloga. Se não fosse a sessão extra, a leitura anual, a previsão para o mês de agosto, nosso último encontro teria sido no meio da madrugada, no ônibus para São Paulo. Você voltando, eu fugindo.
Olho de frente para o corpo. Casa e inimigo. Primeiro, doi. Os olhos ardem como se o ar fosse químico. Continuo. A luz se põe indireta, vinda do abajur herdado sob a cômoda e da fresta na cortina, que deixa a luz amarela da rua entrar pela janela. O jogo de sombras torna a visão das curvas aceitável. Escaneio a carne pesada de vários ângulos, e com o passar dos segundos, o olhar perde a dureza. Quando a parede cai da íris, me sinto mole. A testa desfranze e posso respirar. Pisco algumas vezes. Estou sem as lentes, mas nunca enxerguei tão nítido. Os cabelos cacheados caem suavemente pelas costas brancas e os ombros marcam um ângulo reto que nunca enxerguei. As dimensões, grandes, se mostram delicadas. Olho-me com olhos renascentistas. Encaro os nacos que odeio, encaro-os até que perdem o foco e viram uma massa amorfa de pele, fibra e sangue. Encaro-os até que se tornam familiares. Até que simplesmente são. Eu os sou. Testo ângulos e curvas, e aos poucos entendo. Sou.
Uma buzina do lado de fora me desperta. O frio arrepia minhas costas nuas e vago à procura de algo que me cubra. Nada pode tapar o momento. Vejo na prateleira o cacto que você me deu, mais antigo que todas as minhas relações. Ainda vejo seu rosto sereno se despedindo na porta do prédio, depois de uma noite do nosso bar. Sinto seu café na minha língua, como se nossa história não tivesse expirado há duas vidas. Te beijo boa noite nos meus sonhos e sei que nunca mais terei pesadelos.
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