ISABELA IESSI - SETEMBRO/2020 (Crônica da infância)
UM CATADO DE UMA PARTICIPAÇÃO ÍNFIMA
Revisitando memórias, enquanto criança, não me lembro dela. Demorei para perceber que sua participação foi ínfima durante meu crescimento. Isso explica suas inúmeras tentativas de aproximação? Não sei. Difícil não cobrá-la por isso.
Não lembro da sua voz. Era doce ou grosseira? Tinha resquícios dos maços de cigarro que fumava? Me esqueci ou quase não se dirigia a mim? Tentava?
Apesar da solidão costumeira, esperava ansiosamente que me deixasse com a faxineira. Assim, eu tinha a liberdade de escalar o portão construído pelo papai no quintal. Este, tentava me separar da minha grande paixão. A Paquita, era nossa cachorra, uma pastor belga, que supria a falta que eu sentia de uma mãe. Encontrava refúgio em sua casinha. Entre cheiro de urina, fezes e chumaços de pêlos pretos, que eram a causa da minha bronquite, permanecíamos horas conversando sobre meus tantos amigos imaginários. Ela, atenta, me ouvia. Algo que eu almejo que o façam até hoje.
Quando chegava do trabalho, minha mãe ficava claramente perturbada em me encontrar imunda pelo quintal. Sabia que eu poderia ter mais uma das minhas crises e por fim as suas noites seriam longas. Mesmo assim, na minha inocência, eu adorava ficar doente. Seria finalmente notada? Talvez. Gostava quando eles colocavam meu colchão no chão do lado da sua cama de casal. Um momento em que eu não me sentia tão deslocada do cenário. Podia fugir do meu quarto escuro e da minha cama que pedi inúmeras vezes para mudar a posição porque não gostava que ficasse de frente para o corredor. Sempre achava que alguém estava me olhando e sabia que não teria ninguém para me defender da minha imaginação.
Me pergunto diariamente se passei minha infância toda irritada por ser só. Talvez sim, talvez não. Passei quase todo o tempo procurando uma brecha para ser reparada. Perdi as contas de quantas vezes me escondia atrás do sofá parar assustá-los quando chegavam da rua. Depois de me tornar previsível, pararam de me procurar.
Durante algumas brincadeiras, percebia que o papai se esforçava mais. Apesar de hoje ter a impressão de que ele tentava me cansar, assim como se faz com um cachorro para não ficar muito agitado e causar incômodo durante a noite.
Aos sete anos, minha mãe cobrou que todas as notas do meu boletim fossem dez, afinal, só fazia isso da minha vida. Ora, ora. Tinha apenas sete anos. Podia brincar também? Podia, mas aos sete parecia que a diversão já tinha ficado em segundo plano dentro dos anseios dela.
Aos doze, aprendi cautelosamente a falsificar a assinatura do papai, nos boletins, nas recuperações de matemática, nos bilhetes que as freiras escreviam na minha agenda. Era mais fácil. Não queria lhe causar mais uma decepção. Nessa mesma idade, era difícil não me sentir mais fragilizada. Olhava ao redor e não encontrava ninguém para conversar sobre minhas angústias de pré-adolescente. A Paquita, a essas horas já tinha partido, não tinha mais meus amigos imaginários. Meu porto-seguro agora, era um diário que precisava escrever em códigos por já ter sido violado. Será que ela conseguia entender que eu estava crescendo?
Até as reuniões escolares não faziam mais parte do seu calendário atarefado. Segundo ela, estava cansada de ouvir as mesmas coisas sobre mim “sempre no mundo da lua”. Costuma usar essa mesma expressão nos dias de hoje e ousa dizer que conhece cada um dos meus traços de personalidade. Um dia desses, em uma das nossas incansáveis brigas, disse que éramos iguais. E veja só, terminou a conversa dizendo que não entendia onde eu tinha aprendido a ser tão desrespeitosa. Desrespeito é uma das palavras que ela ama usar quando vou de encontro com seus argumentos tão rasos.
Ela, tão cheia de si e tão contraditória. Eu, tão em dúvida do que a levou a deixar escapar a minha infância.
Isa,
ResponderExcluircomo você consegue ser tão corajosa e forte e frágil ao mesmo tempo? me admira bastante essa característica do seu texto. você não tem medo de se deixar vulnerável e foi isso que me fez conectar com a sua história. amei!
Ná, muitooo obrigada pelo seu comentário tão cheio de afeto. É muito bom saber que encontrou tudo isso na minha escrita. Muito feliz! :D
ExcluirIsa, Natália já disse tudo. História bem forte e eu me identifiquei em alguns momentos. Já sou apaixonada pela suavidade da sua escrita.
ResponderExcluirBeijos Ana.
Olá! Sou nova aqui, ainda não postei. Amei seu texto, me identifiquei com algumas passagens que envolvem medo e solidão. Texto forte, eu também escrevo sobre histórias minhas com intensidade. Ah, só de ter rendido esse texto já não foi tão ínfima (a infância). Bj
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