LETÍCIA ZAMPIÊR - JUNHO/2020 Gatilhos

É mais tarde do que supões

É tarde demais e você sabe disso. Você sabe desde o minuto em que optou por recusar minha presença. É tarde demais desde antes do começo, pois o tempo e o destino, companheiros inseparáveis, nunca estiveram ao nosso lado. Ou talvez só seja mais fácil acreditar em forças externas do que na fragilidade de nós. E como éramos frágeis. Você sabe a minha raiva, e não sei o que se passa na sua cabeça. Repito nossa histórias com outras, como já repetira antes e como vou continuar repetindo. Me bancar custa e você sabe disso mais do que ninguém. Eu te entendi na mesma proporção que você me entendeu. Pouco, muito pouco. Em cada sumiço tentava entender o que você queria de mim. Mas não há respostas que digam de você. Tudo o que sei é que você sempre quis demais e não tinha o suficiente para te dar. 

Sei que os quadros que te dei ficaram meses guardados. Talvez por raiva, talvez por desgosto. Talvez te lembrassem de mim e sei que você quer me esquecer desde antes de existirmos. Pergunto-me se eles amarelaram, se colaram-se a restos de jornal velho no fundo da gaveta, ou se você os colocou em uma parede escondida, que não mostra para ninguém. Um segredo seu, só seu. E meu. Fomos segredos um para o outro. Te guardei como uma história bem contada, pois tinha medo de te perder. Tive muito medo de te perder. E, de tanto medo, perdi. 

Repetimos. Repetimos infinitamente repetições herdadas. Aprendemos a nos firmarmos cegamente em lugares fixos e lutamos bravamente para não sairmos de lá.  Você sabe a minha herança, a marca de não ter um nome, de ter sido roubado. Não pertenço a ninguém que me ame. Eu acho que te amei. Mas não mais do que a ela. Não peço perdão, pois isso não é algo pelo qual se peça desculpas. Juro que tentei. Juro que fiz o possível. Mas o possível foi pouco e somos frágeis. As mãos invisíveis, que me guiam para o lugar de não ser amado e me tiram de ti, são mais fortes.

Aquele dia foi nossa despedida. Nos vimos muitas vezes depois, mas ali foi o fim. Com o sol de fim de tarde entrando por sua janela, aquecendo o meu pedido. Os quadros entregues como que dizendo “É isso que posso lhe dar”. É só isso. E te dei.

Comentários

  1. Oi Letícia, adorei seu texto.

    Achei bastante angustiante mas não no mau sentido. Acho que você mostrou bem uma história de um relacionamento onde não tem entrega, ou uma entrega incompleta devido a tanto medo das duas partes.

    Não sei se você usou propositalmente a palavra repetir e suas flexões mas achei que se encaixaram muito bem no contexto que é uma situação de conflito mesmo.

    bjo
    Isa



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    1. Ei Isa, foi proposital sim, a ideia de repetir a repetição hahahaha

      Muito obrigada pela leitura e pelo comentário.
      Bjos,
      Letícia

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  2. Oi Letícia querida! Uau!!! Eu fiquei muitoooo angustiada...acho que foi me remetendo a algum relacionamento passado...se sua intenção era passar essa angustia da personagem, não sei, mas conseguiu...rs.
    E mesmo ele sendo pequeno toca em tantas questões e no final, meio que se suaviza ao tirar o peso, a culpa...
    Daqui, das minhas observações como leitora gosto muito desse seu jeito de escrever. Bjs

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  3. Letícia, querida.

    Acho que a primeira frase do seu texto não é "É tarde demais e você sabe disso". Logo em seguida me vem uma frase que parece ter muito mais força, singularidade e personalidade. Perceba: "É tarde demais desde antes do começo."
    "É tarde demais desde antes do começo. Você sabe disso. Sabe desde o minuto em que optou por recusar minha presença (...)" e segue. VRAU. Que tal experimentar?

    "Repito nossa história com outras, como já repetira antes e como vou continuar repetindo." e "Repetimos. Repetimos infinitamente repetições herdadas." > essas frases encaixam muito bem com o contexto geral da repetição, que até a Isa sinalizou aqui em cima. Mostra a repetição como uma tendência da personagem (e da relação em si) e, por isso, nos poupa de estranhá-la ao longo do texto. Esperta!

    "Te guardei como uma história bem contada, pois tinha medo de te perder. Tive muito medo de te perder. E, de tanto medo, perdi." > Aqui, sinto que de alguma forma você pode dizer o mesmo, porém sem ser tão literal. Na leitura as frases foram se construindo tão boas e se sobrepondo tão cheias de força, porém senti que a última deu uma queda. Imaginei algo como "Te guardei como uma história bem contada, pois tinha medo de te perder. Tive muito medo de te perder. Quem tem medo demais sempre perde." ... sabe algo assim? Dizer, mas de uma maneira não tão literal ("te perdi")? O que você acha?

    Muito lindo seu texto. Melancólico... ah, a melancolia... por que tão encantadora, né?

    Um beijo,
    Tayná.







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    1. É tarde demais desde antes do começo... putz! Foi demais isso... fiquei lembrando das tantas vezes que comecei algo que já nasceu terminado. Por que insistimos?
      O teu texto me alcançou Leticia... adorei!
      Beijos, Duda.

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