DUDA LOBO - JUNHO/2020
Enquanto eu procurava o tempo, o tempo fugia de mim.
Aconteceu assim que acordei. Fui olhar as horas e elas não estavam lá.
Perguntei para várias pessoas e ninguém sabia me dizer para aonde o tempo havia ido. Todos procuravam por ele e nada.
Enquanto isso o danado ria de mim pelas costas. Deu até nos noticiários, “Tempo foragido do próprio tempo”. As buscas eram intensas, mas não haviam rastros. Percebi que não era uma fuga como anunciavam os telejornais. Era um encontro. Girar em círculos já não lhe bastava.
Para os ponteiros todos os dias eram iguais. Percorriam os mesmos caminhos de sempre, e ainda que fizessem companhia um para o outro, só podiam se encontrar de tempos em tempos. Eu mesma se fosse um já teria fugido. Deus me livre viver à espera da exatidão das horas para poder estar junto.
Óbvio que estavam cansados de redemoinhar sem saber de onde partiam e para aonde iam. Se tivessem me pedido ajuda já teria os alforriado bem antes. A manchete seria: “Moça liberta o tempo do tempo”.
Mas eles fizeram isso sem pedir ajuda. Sem temer jogaram-se lá do alto. Só pensavam em como seria andar por caminhos retos, curvos, voltar e ir quando bem entendessem. Sonhavam em ultrapassar o que um dia disseram que eles eram. Ir além do que haviam sido até ali. Nem puderam dar as mãos, eram 03h55, estavam em lados opostos. Lançaram-se assim mesmo.
Caíram um sob o outro. O tic tac cessou. Emaranhados desfrutaram o prazer de ficar juntos pelo tempo que quisessem. Hoje não precisariam esperar pelas 18h30, nem pelas 21h45… não dessa vez.
As pessoas continuavam perguntando o que havia acontecido com as horas. Por onde andavam? Mal sabiam elas que a liberdade do tempo as libertava também.
Perderam-se todos. Sem tempo, sobrou tempo.
Os ponteiros ali. Vivendo um 15h15 eterno.
Duda que lindo, quanta sensibilidade. Adorei seu texto, principalmente a parte que diz: "Deus me livre viver à espera da exatidão das horas para poder estar junto." Senti muita profundidade nessa frase e me identifiquei super. Penso muito sobre que toda hora é hora e que é tão chato quando tudo é programado, né? Que bom que os ponteiros se revoltaram e fugiram pra poder estar junto tb. Parabéns. :)
ResponderExcluirIsa
Que chique isso de comentarem no que eu escrevo! ahahaha
ExcluirObrigada Isa, pelo tempo dedicado à leitura do meu texto. Toda troca é bem-vinda!
Em relação à espera da exatidão das horas para pode estar junto, apesar de detestável, é só o que temos feitos nesses tempos né? Rs
Beijos, beijos :)
Duda, querida, de cara uma frase forte para puxar a gente para dentro do texto: moça esperta!
ResponderExcluirEm compensação, a segunda frase me pareceu confusa, principalmente depois da potência da primeira. Penso que vale repensar para estruturar melhor. ("Tudo bem que estava procurando apenas pelo hábito de querer saber, por que estando ou não, eu teria que seguir do mesmo jeito". Algo como... "É hábito esse de saber as horas. Estando elas lá ou não, eu teria que seguir". Percebe? Um mexe daqui e um mexe dali, acho que vai melhor.)
O trecho em que você fala dos noticiários ficou EXCELENTE!
Daí em diante o texto ganha confiança e fica delicioso de ler.
No parágrafo "As pessoas continuavam perguntando o que havia acontecido com as horas." (...) acho que seria legal se você nos localizasse melhor. Depois de quanto tempo (rs) elas ainda estavam se perguntando? Exemplo: já era madrugada/ o galo confuso cantou sem saber se devia/ depois de 4 idas e voltas do sol... sabe assim? dizer sem dizer, só pra gente se localizar e o texto aterrizar melhor.
Meus parabéns!
Um beijo,
Tayná.
Tay, sabe o que mais me intriga? Eu postei sabendo que esse segundo parágrafo estava confuso! :) hahahaha
ExcluirSempre penso que reviso pouco e dou menos de mim do que meus textos merecem. Parece que a ansiedade em se livrar deles é maior que meu cuidado em revisitá-los mais vezes. Estou começando a achar que preciso ir na contramão daquela história de simplesmente terminar o texto mesmo quando estiver com a impressão que ele ainda não acabou... talvez no meu caso eu jogue no mundo antes de estarem realmente prontos, rs.
Amei teu comentário! Ando repensando sobre essa minha relação com o escrever e o quanto minha ansiedade reflete nessa prática. Porque toda essa pressa em se livrar deles, Duda? ahahahaha
Beijos Moça :*
Duda! Que lindo!!! E quanta criatividade!!! A brincadeira com a posição dos ponteiros me impressionou!!! Estou encantada!!! Parabéns!
ResponderExcluirBeijos, Ana .
Obrigada Anaaa!! O olhar nos leva a lugares incríveis né?
ExcluirBeijinhos :)
Sim, verdade...ainda mais quando se tem uma imaginação como a sua :)
ExcluirEi Duda! Adorei a "personificação" do tempo, mas especialmente a ideia de que o tempo que foge do tempo é um encontro. Confesso que me perdi um pouco na leitura, mas acho que foi uma confusão gostosa, tipo quando se lê poesia, que o sentido não é claro, mas ainda assim há um sentido? Gostei muito!
ResponderExcluirBeijo,
Letícia
Obrigada Leticia!!! Confesso que tentei deixar o menos confuso possível, mas que bom que ao menos foi uma confusão gostosa! ahahaha
ExcluirBeijos!
Duda, tá de Parabens!!! Muito lindo mesmo esse texto.
ResponderExcluirO que mais me chamou a atenção no seu texto foram as formas de usar as expressões do tempo.
" De tempos em tempos"...
Outra coisa muito boa foi que apesar da repetição da palavra tempo em nenhm momento ficou cansativo. Em todas as vezes, ela se fez necessaria e presente.
Adorei mesmo
Mari
Que delicia saber que você gostou Mari! É difícil encontrar um sinônimo para a palavra "tempo", então resolvi deixar que ela se repetisse mesmo. Fico feliz em saber que chegou aí sem cansar.
ExcluirBeijos!