Mariana Colombo Junho 2020

                                                                Tempo de ser

    É mais tarde do que supões. Era o primeiro pensamento ao olhar o seu nome no telefone. Oscilava entre atender ou rejeitar, só me permiti deixar tocando. Lembrei do seu cheiro na última vez. Tinha um traço amadeirado. Seus olhos estavam frios, não traduziam o sol de fora. Queria tanto que  esses raios estivessem na sua pupila a me iluminar. Eram as migalhas que me restaram...A vida tem seu tempo de ser. Às vezes o tempo da estrela cadente, outras se rasteja feito as lemas. Nossos corações não batiam na mesma velocidade e nem nossa respiração tinha o mesmo ritmo quando deitava sobre você. A porta bateu, continuei te observando no olho mágico. Sua imagem se distanciava no corredor até o elevador chegar. Não tranquei a porta. Talvez hoje seja tarde demais...
    O meu qurerer era fugir contigo. Entrar em outras portas, que nossos relógios se sincronizassem. O concreto cinza das paredes desse apatramento se disfizesse e espalhasse nossa aura em brisas. Teu cheiro me envolvia. O sol estava sobre nós a nos abençoar. Nesse dia os segundos não teriam fim. Esses sim, andariam descompassados para que nosso momento não acabasse. 
    Tudo era finito, até o meu desejo. Hoje só consigo me lembrar de quanto tentei me enroscar em ti. Sentir essa tua barba roçando no meu pescoço. Me fundindo a você e antes que abrisse os olhos estava em teus braços. Escorregava feito areia de suas mãos. Cada vez mais rápido e intensamente. Só continuava a cair...Por sorte, o chão era perto. Até que um dia preferi o chão a teus braços. Até ele era mais quente e acolhedor. Queria te enlaçar nesse moneto, será que seriam assim novamente?
    Olhei para o lado e vi uma flor solitária com o sol iluminando somente as suas pétalas. Eram amarelas? Luz demais também cega. Não podia ver um reflexo tão verdadeiro. Como nunca pude me enxergar assim?

Comentários

  1. Mari, querida.
    seu texto é tocante, melancólico, sexy, quente (as cenas, o desejo, o sol... elementos que combinam entre si). Percebo seu estilo bem claramente nele e isso é sempre bom. Ler um texto e saber ou ao menos suspeitar de onde vem.

    sobre o título, acho que você ficou inconscientemente com o último Sutilezas na cabeça. rs então vou fazer uma provocação, que outros títulos esse texto poderia ter?

    você traz frases muito boas e cenas bonitas ao se texto: "Tudo era finito, até o meu desejo" (não sei se foi proposital, mas o "era" para se tratar de algo infinito é uma pegadinha. é como se o desejo tivesse acabado, como se o infinito fosse relativo. gostei da brincadeira. "espalhasse nossa aura em brisas" é uma cena muito, muito bonita!

    minha sugestão é que você, após escrever seu texto, é pensar no tom que você quer. despretensioso? intimista? culto? formal? digo isso para que você se atente a umas passagens que me parecem destoar do seu tom geral ou ao menos do tom desse texto.
    explico: ele parece um texto muito íntimo e, como disse, sensual. algumas frases de cunho mais erudito, como "Queria tanto que esses raios estivessem na sua pupila a me iluminar" ou "O sol estava sobre nós a nos abençoar"... perceba como tem um tom diferente de: "Teu cheiro me envolvia", "Sentir essa tua barba roçando no meu pescoço", por exemplo.
    é esse tipo de frase que sugiro rever. por isso, pense nessa linha imaginária guiando seu texto, num tom. depois que ele estiver pronto, tente perceber tudo que faz ele desafinar.

    exemplo de como as frases podem ajustar: em vez de ""O sol estava sobre nós a nos abençoar", imagina um "O sol só espiando, deixando a gente queimar"/ "O sol queimando, nós dois em brasa" ... consegue perceber?

    a cena final ficou lindíssima, deu um tom de reticências, de redenção. gosto da sua entrega na escrita, Mari.

    um beijo,
    Tayná




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    Respostas
    1. Tay querida,
      você não sabe, eu tenho mania de imprimir os contos do sutilezas e semana passada fui imprimir o do mes e me deparei com o titulo e pensei a mesma coisa. Por isso que todo escritor lê tanto . Tudo fica qui só basta a gente acessar.

      Fiquei muti feliz que tenha gostado do texto e concordoontigo sobre as cenas ficarem algumas vezes muito serias e outras muito sensuais estou relendo ele para poder mudar esses detalhes.

      Do resto fico muito feliz com a sua analise e mais ocm isso com a forma que demonstra onde poderia ser difernte sem mudar o nosso texto!

      Muito Obrigada,
      Beijos Mari

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    2. Reescrevi

      Reflexos invisíveis

      É mais tarde do que supões. Era o primeiro pensamento ao olhar o seu nome no telefone. Oscilava entre atender ou rejeitar, só me permiti deixar tocando. Lembrei do seu cheiro na última vez. Tinha um traço amadeirado. Seus olhos estavam frios, não traduziam o sol de fora. Queria tanto que esses raios estivessem a me desejar...
      A vida tem seu tempo de ser. Às vezes o tempo da estrela cadente, outras se rasteja feito as lesmas. Nossos corações não batiam na mesma velocidade e nem nossa respiração tinha o mesmo ritmo quando deitava sobre você. A porta bateu, continuei te observando no olho mágico. Sua imagem se distanciava no corredor até o elevador chegar. Não tranquei a porta. Talvez hoje seja tarde demais...
      O meu impulso era fugir contigo. Entrar em outras portas, que nossos relógios se sincronizassem. Que o concreto cinza das paredes desse apartamento se desfizesse e espalhasse nossa aura em brisas. Teu cheiro me envolvia. O sol só nos espiando, nos deixando queimar. Nesse dia os segundos não teriam fim. Esses sim, andariam descompassados para que nosso momento não acabasse.
      Tudo era finito, até o meu desejo. Hoje só consigo me lembrar de quanto tentei me enroscar em ti. Sentir essa tua barba roçando no meu pescoço. Me misturando em você e antes que abrisse os olhos estava em teus braços. Escorregava feito areia de suas mãos. Cada vez mais rápido e intensamente. Só continuava a cair...Por sorte, o chão era perto. Até que um dia preferi o chão a teus braços. Até ele era mais quente e acolhedor. Queria te enlaçar agora será que seria assim novamente?
      Olhei para o lado e vi uma flor solitária com o sol iluminando somente as suas pétalas. Eram amarelas? Luz demais também cega. Não podia ver um reflexo tão verdadeiro. Como nunca pude me enxergar assim?

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