Mariana Colombo - Texto com Microcontos
Doralice descia a rua pensando
no que fazer, o dia tinha cheiro de jasmim e observava todas as placas escritas
nas árvores. Queria saber quem seria a pessoa por trás daquilo. De um dia para
outro, todas as árvores nasceram com dizeres de poetas, poetisas, cantores, e
todo tipo de alegria em forma de palavras. A última que leu foi “a vida se
embola e ela só se enrola”. Não podia não lembrar de Antônio, foram 6 anos e parecia
mais uma vez que tudo tinha acabado. Seu olhar que tinha brilho de repente
perdeu a cor. Ficou com ele longe e perdido. Lembrava quantas foram as vezes em
que deu mais uma chance ao amor, ou a Antônio. Nem sabia mais quem era o quê. Nem
mesmo que momento tinha sido feliz com ele. Lembrar assim ficava difícil, ainda
mais pra ela. Entre pensar quantas vezes ele tinha sumido a noite ou em outras
tantas que tinha sido o primeiro a chegar nos aniversários, formatura e no dia
da morte de sua avó. O amor era tão presente quanto ausente. Doralice não sabia
quando era cada um.
Talvez seja isso. Ele não era
nem mocinho e nem vilão, era Antônio. Poque queria tanto encaixar ele em nos
potes? Nem fale de encaixe com ele, nunca acertou a tampa de nenhum tapperware.
Só tinha a base e tudo trocado. Talvez isso fosse um sinal. Mas ela não quis
ver. Achava que desistir dele, seria fracassar. Mostrar que ela não era boa. Mas
será que alguma mulher já se sentiu suficiente? Sabia as regras do mundo, ainda
mais pra ela, que nasceu em Rocha Miranda. Sabia exatamente quantos minutos eram
necessários até chegar ao trabalho e que esses nunca pareciam ser suficientes para
o tamanho de acidentes, caos, e confusão no trem do Rio. Aprendeu ainda quando
novinha vendo como era difícil viver ali. O mundo era existência e resistência. Ela só sabia
sobreviver. Mas isso não estava escrito em nenhuma placa e estava
pintado na sua pele, já gasta, mas que ainda era sua.
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