ISABELA IESSI - SETEMBRO/2020 (Títulos/Sinopses)

 Barba de arame

Entre as recordações mais vívidas da minha infância estão as pipas em forma de pássaro que soltávamos no quintal, a tampa do dedão do pé que ficava no piso áspero de quando corria tentando me esconder de você. Lembro também de quando jogávamos cacheta no chão da sala ou a piscina de plástico de metais encaixados que só você conseguia montar. Descobrir que tinha te trocado por um diário foi doloroso, né? Me perder não estava nos seus planos, eu sei. Também não estavam nos meus ouvir as palavras absurdas que saíram da sua boca. Desde então, não reclamo mais da sua barba roçando no meu ombro.


Os obedientes

- Quando chegarmos na casa da sua tia não quero saber de correria ou gritaria.

- Você não é todo mundo.

- Você avisou sua chefe? É assim mesmo, às vezes precisamos engolir sapos.

- O filho da Cristina passou em um concurso e está super bem. Veja se esse te interessa.

- Esse não é o caminho certo. Eu sei do que você precisa.

- Não, não há necessidade de improvisar. Na minha época…

- Se Ele quis assim, é o melhor.

- Tenho tanto orgulho de você.


O menino de água

Pedro era conhecido por conter uma fragilidade em expedição. Ainda acho que ele só era assim porque ninguém o deixava sorrir. Sua deficiência era colocada em evidência constantemente. Eu só conseguia sentir pena por ter tantas pessoas ao seu redor apagando o que ele tinha de melhor. Um dia perguntei qual era seu grande sonho e ele me disse que gostaria de ver seu reflexo na água, só assim conseguiria entender como as pessoas o enxergam. Uma imagem que se esvai com o vento.


Ana Davenga

Em uma das mãos, o segundo café passado direto no copo americano. Na outra, a cadeira de fio de plástico azul enrolado. Queimava a mão, derramava quase tudo. Arrastava os pés da cadeira com a canela já cheia de hematomas. Do lado de fora do portão de grade, aguardava um por um. Ana Davenga gostava de ser a primeira a saber dos horários de sua vizinhança. As mãos estavam cheias, só a cabeça que não.


Ressurreto

Até quando você achou que faria sentido para todas as pessoas? Por que é pecado te questionar? Por que eu tenho que acreditar que só você é bom e todos os outros foram inventados? Se ressuscitou por que decidiu subir aos céus? Não seria mais lógico alguém que diz ter o maior amor do mundo ficar ao lado das suas crias enquanto tantas delas sofrem sem nem saber a razão? Não, hoje eu não direi amém.

Movimento hipotético de desorientação

O deslizar viciante dos dedos sobre a tela. Escorremos vidas entre os polegares, as nossas, a de outros. Movimento catastrófico que expõe o quão desorientados estamos nesse tal de 2020. Antes, já dávamos sinais. Hoje, vestimos as premissas que resultaram na conclusão de uma vida miserável da nossa sociedade ansiosa e incontrolável. Não nos acrescenta nada. Apenas repetimos rigorosamente os passos que nos levam ao abismo.


Comentários

  1. Isa, sua maravilhosa...gostei de todos. Uma força na escrita e uma criatividade impar. Me emocionei tanto...parece que me encontro nos seus textos. Acho que a gente busca mesmo identificação.

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