Crônica Outubro 2020
Quem com
bullying é ferido, com ele fará análise
Porque
nenhum coaching é capaz de ressignificar os traumas da escola e adolescência.
Quem viveu nos anos 90 sabe que a
pedagogia era bem diferente da de hoje. Ainda perguntam porque todos os jovens
da geração Y estão lotando os consultórios de psicanálise. A união de faça o
que você quiser e dará certo, nunca vi frase mais frustrante com a pedagogia
repressora dessa época criou uma geração mimada e sem auto estima nenhuma. Que
delicia fazer parte disso! Nem se sonhava com disciplina positiva e com o mal
que o suco de laranja e seu excesso de açúcar eram capazes de gerar. Isso
porque eu nem citei as mamadeiras de coca-cola!
Para explicitar melhor farei um compilado de casos auto
expositores. Teve uma professora no jardim de infância que resolveu fazer uma
gincana. No mesmo momento pensei: “oba teremos brindes”, estilo os saquinhos de
festa. Começaram as perguntas: “Quem faz xixi na cama?”, ninguém levantava uma
mão, “quem chupa chupeta?”, todos quietos. Até que chegou a fatídica pergunta:
“Quem mama na mamadeira?” Eu levantei a mão, Era a verdade. Fui inocente? Sim.
O resultado é que até hoje, no auge dos meus 33 anos eu que não sou nada
tímida, não sou capaz de fazer nenhuma pergunta em turmas com mais de 5
pessoas. Passei 6 anos de faculdade sem tirar uma duvida com o professor com
medo de não ganhar o brinde, ou de todos me olharem com cara de “como assim
você está perguntando isso?”.
Podemos passar para outro episódio maravilhoso da minha
infância. Eu era odiada pelas meninas do meu prédio. E existia uma brincadeira,
tão saudável quanto margarina, em que alguém falava elevador tem 4 cantos. E
mesmo tendo 3 pessoas eu sempre ficava no meio. Lembro de diversas vezes chegar
em casa com o cabelo todo embaraçado e passar horas tentando desfazer os nós.
Brincadeiras dos prédios tijucanos, cariocas entenderão.
Da tijuca a Alemanha não faltam exemplos. Estudava em um
colégio alemão. Tinha uma prova de nivelamento que era feita com a Alemanha.
Todos os alunos faziam, passávamos o ano todo estudando pra essa prova. Era
chegado o dia do resultado, e a Frau me chamou do lado de fora. Até hoje lembro
da fresta da porta que ela deixou aberta. Disse que eu era a única da sétima
serie que não tinha passado na prova. Pronto, saiu e entrou na sala, que todos
tinham escutado esse comentário. Parabenizou a todos. No ano seguinte passei
com tanto louvor que ganhei um dicionário alemão português. Só pensava como ele
teria sido mais útil no ano anterior.
Antes de sair do colégio pra fechar com chave de ouro essa
minha participação, estava no 3 ano. Época de um misto de pensamentos de quem
já transou com preciso passar no vestibular. O professor “cool”, essa palavra
da minha época para desginar pessoas descoladas caso os millenials não saibam,
nesse contexto era o mesmo que cantava as alunas e fazia comentários sobre as
pernas delas com saias. Perguntou quem iria fazer medicina. Eu inocentemente
levantei a mão, se tivesse aprendido no jardim de infacia a nem levantar a mão
estaria livre dessa. Éramos eu e mais 3. Ele fez questão de comentar um a um.
No meu disse: “você não tem chance de passar pra publica, terá que tentar outro
ano também.” No ano seguinte fui visitar o colégio e tudo que queria era dizer
que “sim, tinha passado numa federal”, não consegui nem dar oi pra ele.
Poderia terminar com uma frase de coaching: todos os meus
desafios serviram pra eu me superar. Isso seria uma grande mentira. Só serviu
pra aumentar meus anos de terapia e as chances de ser ferida pela vida.
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