Exercício de crônica
CACOS DA INFÂNCIA
Primeira publicação no blog, sou nova no grupo. O tema proposto me intimida, meus arquivos da infância são densos, solitários e a crônica não é o melhor formato para se sofrer. Passo a chave nos pensamentos para não revisitar o passado. Não farei o primeiro exercício.
Decisão tomada e uma imagem vermelha pipoca na minha mente sem parar, enfiando o pé na porta e pedindo atenção: um piso de cacos de cerâmica. Sei de onde ele era, do pilotis do prédio onde morei na infância, área de brincadeira das crianças. Essa lembrança traz com ela, de mãos dadas , a do play do prédio de uma amiga, do outro lado da rua. Imagens de uma espécie de geografia da felicidade infantil abrem o trinco do texto.
Se uma crônica fosse desenhada e pintada tudo estaria resolvido por aqui mesmo. Na minha infância, cacos de cerâmica quebrada eram um material resistente e de baixo custo muito usado em quintais, varandas e áreas abertas. Eram em sua maioria vermelhos, embora houvesse também cacos pretos e amarelos, mas esses eram mais caros, então entravam em menor número para dar um toque artístico de gosto duvidoso à composição. O resultado era um mosaico desencaixado com peças lançadas e espalhadas ao acaso sobre o cimento molhado.
Cenas inteiras me vieram à cabeça, piques, corda, bicicleta, o degrau onde sentávamos para bater papo, passar anel, fazer jogos de palavras, trocar figurinha de álbum, o porteiro Gerôncio que me chamava de Carolina e cantava a música do Chico Buarque, a Miyuki, minha melhor amiga, com seu velocípede que tinha uma caixa amarela de sorvete Kibon na parte de trás, fiquei doente quando a família dela retornou ao Japão. Com aqueles vizinhos amigos não havia conflitos, se houvesse eu me lembraria com certeza, pois sendo filha única nunca soube brigar. Era o ar livre, a expansão possível, o espaço onde eu me sentia quase normal. Um tempo sem artefatos tecnológicos , de brincadeiras com o corpo e a imaginação. E foi justamente a tecnologia que há quatro anos nos reuniu de novo, via redes sociais, e desde então todo mês nos encontramos e sentamos num degrau para compartilhar histórias.
Como o chão fincou bandeira na minha memória? Talvez meu trabalho com artes plásticas, mais intenso na quarentena, tenha aberto as trilhas por onde tais imagens passaram do subsolo ao térreo. E do térreo para o outro lado da rua. O edifício da Márcia, amiga da escola, era moderno para a ocasião e tinha uma grande área entre o bloco da frente e o de trás para brincadeiras. O chão era de uma espécie de cimento cinzento que simulava umas micro-pedrinhas claras, aquele piso tinha sido pensado. Linhas pretas ondulantes formavam caminhos ao longo da área, passando ao redor de colunas redondas e formando regiões cinza-chumbo de formato orgânico, como umas células. Esse traçado decorativo do piso conduzia e demarcava brincadeiras inventadas ali na hora, em que as manchas eram ilhas salvadoras, quem estivesse ali não poderia ser pego no pique e todos corriam para lá mas não cabiam, era um empurra-empurra delicioso. Se os cacos vermelhos do meu prédio tinham ares de Galdi tijucano, esse espaço do edifício da Márcia era uma tela de Miró em cima da qual pisávamos e corríamos.
A criatividade infantil se junta às cores e formas do piso, que se junta às Artes Plásticas, que se junta às palavras, que me trazem até aqui. Não será a própria memória um mosaico de cacos coloridos, linhas que criam trilhas e núcleos de conteúdo emocional? Agradeço à crônica enquanto gênero por me relembrar de um tempo em que me sentia feliz e igual aos meus amigos. Não sei bem como esse sentimento se perdeu, mas isso é para o exercício de contos.
Comentários
Postar um comentário