ISABELA IESSI - DEZEMBRO/2020 (relacionamento desgastado - relação sexual)
PIPOCA DE MICRO-ONDAS
Me falha a memória de quantas vezes inventamos desculpas para nos encontrar. Você se lembra de quando íamos ao cinema e nos pegávamos lá mesmo? Nosso dia era em torno da hora em que nos veríamos. Você me mandava sacanagens por mensagens, eu visualizava e fingia estar ocupada. Na hora certa, atrasava e saia no portão correndo, suada e de mini saia para facilitar. Você, fingia não estar atiçado. Loucos por um filme de terror. Entre um susto e outro, as pessoas gritavam e a gente urrava. Dois animais inconsequentes. No canto, no escuro. Faceiros a ponto de ninguém perceber as suas mãos entre minhas pernas e sua braguilha aberta por debaixo da pipoca e do refrigerante. Derrubávamos, lambíamos os dedos. Recomeçávamos. No final da noite, a gente ia para o carro e virava na primeira rua sem saída. Quanto mais o medo de alguém se incomodar com os gemidos que vinham do carro, mais o tesão aumentava. A gente se encaixava com facilidade. Hoje, não mais. Antes éramos pipoca de cinema. Hoje não passamos de uma pipoca tradicional de micro-ondas.
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